UMA METODOLOGIA PERVERSA DE DESINTEGRAR O DISCURSO E AVILTAR A PSICOLOGIA

Na última sexta-feira eu vários colegas psicólogos e psicólogas estivemos na Assembléia do CRP.

A Assembléia é órgão supremo de uma associação, composta, portanto, por todos os associados que têm direito a voto. No Sistema Conselhos de Psicologia o funcionamento das Assembleias é normatizado pelo Decreto Lei 79.822 de 1977, que regulamenta a Lei 5766 de 1971.

No referido decreto o funcionamento de uma Assembléia Geral é definido pela Seção II, artigos 24 a 30. Em linhas gerais a assembleia geral ordinária se reúne uma vez por ano (26) para deliberar sobre assuntos de sua competência (25), dentre os quais estão: a aprovação da aquisição de bens (II); valores da anuidade (III). A assembleia pode se reunir extraordinariamente por convocação da presidente ou por 1\3 da categoria. Geralmente o regime de votação é por maioria simples dos presentes.

De maneira geral, nos Conselhos Regionais, não há um Regimento oficial para “reger” essas reuniões, todavia, de praxe tais reuniões seguem, em linhas gerais, as normas estabelecidas na Resolução CFP 10 de 1998, resolução que institui o regimento interno da Assembleia das Políticas da Administração e das Finanças (APAF), seguido por todos os Conselhos nestas reuniões.

Uma assembleia comumente inicia-se com as formalidades, quais sejam: verificação de quórum, apresentação da pauta (que foi enviada pelo CRP com antecedência) e a mesa diretora é normalmente composta pela diretoria da entidade que conduz os trabalhos. E assim foi. A pauta da referida reunião foi informada com antecedência pelo CRP pelos meios eletrônicos (e-mail, Facebook, site) e está disponível no site da entidade no link CRP SP Informa, Dela constam dois itens: a) Prestação de Contas de 2017; e b) Alienação de Imóveis.

Normalmente essas reuniões são bem esvaziadas, como são também (mal comparando) assembleias em condomínios, que possuem estrutura semelhante. Neste dia havia cerca de 30 pessoas presentes na sede do CRP e um número equivalente nos polos de transmissão nas Subsedes. Como tais reuniões são transmitidas online, havia também alguns colegas acompanhando a transmissão pela internet. Vale destacar que do ponto de vista legal da fala, só tem voz as pessoas que estejam nos polos de transmissão, onde os participantes registram presença e, é claro, as pessoas que estavam presentes na sede.

A reunião começou como de praxe conduzida pela mesa diretora coordenada pela presidente do CRP e pelo conselheiro tesoureiro. Na plateia todos devem estar como “iguais”, psicólog@s, embora presentes estivessem alguns conselheir@s da gestão atual, e ex-conselheir@s de gestões anteriores, dente eles eu, além de colaboradores da gestão, e um(a) ou outro(a) psicólogo(a). Isso é bastante comum, pois infelizmente a categoria é muito pouco participativa.

Normalmente essas reuniões são muito chatas, sobretudo pela necessidade de seguirem um trâmite formal. E assim foi. A mesa apresentou a prestação de contas de 2017, com o detalhamento das ações políticas (propostas pela chapa que ganhou as eleições), acompanhada dos informes financeiros. Todos os presentes receberam uma cópia do material em via impressa para acompanhar o que estava sendo apresentado.

Devo dizer que gostei da forma didática como foram apresentados os dados. Houve um momento mais “chato”, pois o conselheiro tesoureiro entrou em detalhes do planejamento estratégico seguindo uma planilha muito complexa. Houve a reclamação e o tesoureiro apressou um pouco mais sua fala. Assim foram apresentadas as duas pautas, a da prestação de contas e a dos imóveis.

Importante destacar que a “prestação de contas” é apenas um informe, numa autarquia dessa natureza a “aprovação” é feita em várias etapas: primeiro pel@s conselheir@s eleitos pela categoria, em uma sessão plenária. Depois são enviadas para o Conselho Federal para verificação e sofrem auditorias. O CRPSP é bem cauteloso nessas questões e, não raro, são chamadas auditorias independentes para verificação da lisura dos processos. Por fim, essas contas passam ainda pela aprovação do TCU. Vale destacar que nos últimos anos as contas de SP foram sempre aprovadas e a entidade goza de uma boa saúde financeira. Tudo isso acaba por fim disponibilizado pela entidade no Portal da Transparência que vai sendo alimentado paulatinamente, em velocidade baixa (infelizmente).

Bem, finda a fase de apresentação dos dados, cabia a nós psicólogos e psicólogas presentes discutir a destinação que seria dada ao superávit financeiro. Apenas isso, como estava previsto na pauta. Abriu-se então as inscrições para concessão da palavra, seguindo tacitamente as regras da Resolução da 10/98. Aos coordenadores dos trabalhos cabia conceder a palavra e coordenar o tempo de fala. Foi estabelecido que as falas seriam concedidas em blocos de 10 pessoas, e que cada pessoa teria no máximo 3 minutos para se manifestar sobre a pauta (SOBRE A PAUTA, PELO AMOR DE DEUS!!!!)

Imediatamente vários colegas levantaram a mão simultaneamente. A mesa tomou nota dos nomes e iniciou a coordenação, como lhe cabia. O que se seguiu foi absolutamente surrealista.

Eu estava ciente que havia uma cisão política no plenário. Já tive oportunidade de discorrer sobre isso em momento anterior. Assim hoje no CRP existem dois grupos políticos: o grupo que foi eleito pela categoria, do qual eu faço parte (Cuidar) e um grupo novo que surgiu como uma dissidência. Uma situação totalmente inusitada, pois diferente do Congresso Nacional que é formado por partidos, nos Conselhos Profissionais a eleição elege uma chapa composta por pessoas do mesmo grupo político. Tudo bem, a situação pode ser inusitada, mas “poderia” ser até salutar. Eu conheço apenas alguns colegas desse novo grupo.

Bem, aconteceu o seguinte: Ao ser concedida a palavra seis ou sete pessoas levantaram a mão simultaneamente, eram todas desse novo grupo político (só percebi isso depois), inclusive um rapaz que havia se anunciado como não pertencendo a grupo nenhum, e que fez falas contundente e muito equivocadas.

Ao iniciarem as falas individuais dos presentes (discussões) que deveriam estar focadas no que fazer com o superávit financeiro, pauta do dia, a ordem começou a ser subvertida, ou seja, a “prestação de contas” passou a ser encaminhada como se fosse uma “aprovação de contas”, o que era completamente indevido por todas as razões apresentadas acima. Ainda assim, tudo bem, que ficasse registrado em ata a discordância.

Mas a forma como isso foi conduzido foi completamente inusitada, mas orquestrada. Ao invés das pessoas inscritas usarem seus três minutos de fala conforme previsto, estas começaram a ceder seus tempos para uma única pessoa, “o líder”, o que, por óbvio, gerou objeções, minhas inclusive. Neste momento percebi que se tratava do mesmo grupo de pessoas.

Mas, mais inusitado ainda foi o que aconteceu a seguir. Então este bloco formado em grande parte por conselheir@s desse novo grupo político dissidente, foi se apresentando como tal “exigindo seu direito de fala”, “direito de resposta”, “tempo igualitário”... E, pasmem, passou a sacar de celulares e a filmar o desconforto causado na assembleia que foi subvertida como plenária, disponibilizando tais vídeos em sua página na internet!

Eu também questionei a ação. Em alguns momentos tentei ajudar pessoas desse grupo a organizarem suas ideias. Mas tudo que eu tentei falar foi visto como tentativa de “bloquear a fala do outro”, sempre com uma formulação do tipo “você quer me deixar falar?”, ou “você está impedindo a minha fala”. Foi verdadeiramente assustador!

Então vamos compreender a metodologia perversa utilizada para desestruturar o discurso e travar a pauta: a) Inicialmente o grupo mantém o silêncio como se estive atento ao que está sendo dito (esse momento não é filmado); b) Ao ser aberta a palavra, todos levantam a mão simultaneamente criando um bloco sequencial de fala (de pessoas); c) ao ser utilizada a palavra, as pessoas abrem mão de sua vez, cedendo-a a uma única pessoa, o líder, que vem com um discurso pronto, que foge à ordem do dia, subvertendo, assim, tanto a estrutura proposta para os trabalhos (3 minutos por pessoa), quanto e a ordem do dia (a prestação de contas virou aprovação de contas). Essa ação - intencional - gera um desconforto geral no outro grupo que passa a exigir que os trabalhos sigam os combinados (nesse momento são sacados celulares e começam as filmagens) e) ao serem questionados sobre a ação improcedente, começam a trazer argumentos regimentais para protelar a discussão (travar a pauta), servindo-se até de resoluções de outros conselhos; f) o clima tenso vai se densificando (começam falas pessoais e agressivas, e as filmagens continuam). g) a ação prossegue pelo tempo que for possível de modo que a pauta não seja cumprida. Exigindo-se a convocação de uma nova reunião.

Já vivi muitos embates políticos durante o tempo em que estive na gestão. Vi embates entre grupos políticos diferentes na APAF, e em outros espaços, mas o que vivemos na última sexta-feira, foge das raias do minimamente aceitável, desrespeita a categoria em vários sentidos. Eu me senti muito desrespeitado. Pois sob o signo de uma suposta “moralização financeira” (muito em voga atualmente) esse grupo além de travar a pauta (bem à moda de uma metodologia clássica de desgaste político), além de promover o desgaste e a exposição de todos (a assembleia terminou à meia noite) aumenta os custos do Conselho, pois uma nova assembleia deverá ser chamada, uma vez que uma pauta simples não pode ser cumprida. Essa ação lamentável e intencional desse grupo, fere os princípios mais básicos e fundamentais da ética da profissão, promove sofrimento psíquico instigando a violência, avilta a psicologia em seu compromisso ético político. Uma tristeza.

LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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