PARAÍSO PERDIDO E (RE)NASCIMENTO, NO MOMENTO DIVERTIDÍSSIMO DA FRONTEIRA NEW AGE

Quando em entrevista coletiva tratando do desejo descabido de intervencionismo militar fomentado por radicais, durante a greve dos caminhoneiros, ouvi o general Etchegoywn, chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo, afirmar que “o século XXI era divertidíssimo”, achei sua fala naquele contexto, um tanto descabida.

As pessoas, desequilibradas pela situação, imediatamente começaram a entrar em pânico e, pensando em si mesmas (ou em suas famílias) passaram a comprar “28 quilos que arroz no supermercado”, encher os tanques de combustível de seus carros e, se possível, galões extras, procurando se preparar para iminente catástrofe, importando-se pouco com quem viria depois. Coisas que vemos nos filmes de final do mundo de Hollywood.

Eu mantive-me estável. Não corri ao posto nem ao supermercado. Estava almoçando num restaurante enquanto acompanhava, pela janela, o frenesi da população num posto de combustível ao lado.

Mas, a greve foi continuando...

O governo letárgico, em estratégia tabajara demonstrava incompetência ímpar, nunca dantes vista no país, pois não conseguia solucionar o problema. Na verdade, foi a política de austeridade tiro no pé, que subordinou o país a interesses internacionais que fomentava a crise.

E a greve continuando...

Os analistas mais perdidos que cegos em tiroteio. Pouquíssimos conseguiram falar alguma coisa que se aproveitasse, para além do óbvio. Lembrei bem de 2008, quando anunciavam “- A Bolsa vai cair”, e a Bolsa subia; ou o contrário: “- Agora a Bolsa irá subir” e a Bolsa caia. Perdidos estavam. Ninguém sabia explicar nada, num movimento pulverizado, parecido com o das manifestações de 2013...

Os oportunistas de plantão trataram de fazer discursos com aparente articulação, mas equivocados enviando áudios virilizados “clamando pela intervenção militar”, ridicularizada pelo general.

E a greve continuando...

Fui ao supermercado comprar o trivial. Topei com gondolas vazias. O que a mídia mostrava era verdade! De repente vi-me tomado pelo impulso de preservação consumista. Enchi o carrinho de insumos, devolvendo-os logo em seguida... Ah hah! Venci o “maledeto”, pensei. (mais ou menos). Tenho que confessar que comprei umas coisinhas a mais do que precisava, mas como estava de moto, foi só umas “cositas” mesmo.

Entramos naquele momento lusco-fusco da greve, acaba-num-acaba...

Na TV: “caminhões tanques escoltados chegam a alguns postos de combustível...”

A gasolina da moto acabando. Dei um rápido rolê pela região com o pouco que me restava e nada, nenhum posto aberto. A gasolina acabaria a qualquer momento. Voltei pra casa, apreensivo. O carro ainda tinha meio tanque. Tentei uma estratégia “retrô”, própria dos anos 1980, de tirar gasolina do carro com uma mangueira para colocar na moto, sem sucesso.

E a greve continuando... - Só “570 pontos de bloqueio em todo o país”, anunciava a mídia.

Meu filho informou que no posto tal tinha combustível. Numa folga, peguei o carro que já estava na reserva e fui lá. Passei do lado da fila e perguntei para um motorista. – Tá andando rápido? – Tô aqui na fila há 4 horas! – respondeu. Desisti. Mas, dando a volta para ir embora, vi que a fila de motos estava muito menor.

Voltei, peguei a moto, e retornei ao posto. Como era hora do almoço arrisquei. Fiquei “apenas duas horas” na fila debaixo do sol meio-dia. Como todos os demais motoqueiros, empurrei a moto. Mas, esse raio de moto (a minha) tem um monte de luzes inúteis. Devo ter apertado algum botão “errado” e, conclusão, no final eu tinha gasolina e não tinha bateria. Detalhe trata-se de uma scooter grande (400): só pega com bateria, não tem pedal de partida, e pesa mais de 200 kg!

Sai calmamente do posto completamente lotado, mentalizando alguns palavrões para mim mesmo, em função de minha incompetência, e em busca de resolução do problema.

No posto completamente lotado. Carros, motos, e pessoas a pé com galões gigantescos. Tudo fora da padronização. Um perigo. Galões de 20 litros sem tampa. Pessoas enchendo o tanque dos carros com funis improvisados, muito combustível no chão. Uma coisa assustadora, uma fagulha e tudo iria pros ares...

Comprei um cabo de alumínio, numa casa de autopeças da esquina. “para a chupeta elétrica numa bateria alheia” ... Não funcionou. Devolvi. Pedi um cabo de cobre emprestado numa oficina conhecida, e a moto funcionou. A operação toda durou apenas três horas e meia. Divertido, não? Acho que o general tem razão.

Eu estava/estou num daqueles momentos “depre” de final de setênio (8º), em que concluí pelo encerramento de um projeto em que investi longos anos; vivenciando os efeitos tragicômicos da greve dos caminhoneiros, conforme narrado acima; a perda do amigo, morto na semana passada (descrita no post anterior). Aquelas horas que vem na mente a frase do médico que diz: “- Ele está desenganado...”. Eu estava desenganado. Então toca a música “Epitáfio” dos Titãs: “Devia ter trabalhado menos...” Caramba!

Sem muita convicção, resolvemos, eu minha mulher, ir ao cinema, era noite de estreia.

Antes de sair, no “Jornal das Seis”, vi algo que chamou a atenção. A jornalista anunciava a realização da gigantesca e inovadora “Marcha para Jesus 2018”, um tipo de Lollapalooza gospel, que acontecia em São Paulo, com Axé Gospel, e tudo; ao lado de matéria que tratava dos tradicionais tapetes católicos de Corpus Christi, lá de Santana do Parnaíba que são destruídos pela passagem da procissão. Uma lição para a impermanência da vida. Tudo acontecendo no mesmo dia, e anunciado no mesmo jornal, um reflexo importantíssimo da laicidade do estado, na preservação da diversidade religiosa.

No cinema o surpreendente “Paraíso Perdido”, de Monique Gardemberg. Drama-musical com músicas “bregas” (e profundas em sua pegada existencial). Odair José, Márcio Greyck, Waldick Soriano, entre outros; em interpretações fantásticas de Jaloo, Seu Jorge, Erasmo Carlos, Júlio Andrade. Uma história que quando você acha que vai embicar para o óbvio dá uma guinada e revela o drama de uma “grande família” (não convencional), amorosa e passional, que lida de forma natural com as questões da vida contemporânea: a diversidade sexual e a homofobia; a deficiência física – interessantíssima a inclusão da linguagem de sinais dos deficientes auditivos; o preconceito racial; o sistema prisional, a polícia – em uma intrincada trama inter/intrafamiliar e intergeracional. Vale a pena assistir.

Tudo isso me trouxe de volta a fala do general: “momento divertidíssimo”. Não sei se podemos chamar de “divertido” o que estamos vivendo, mas certamente é interessantíssimo o século XXI.

Penso que estamos diante do nascimento do tão falado “novo paradigma”, ou da tão falada “nova era”, seja lá o nome que queiramos dar. Há um choque do velho com o novo. Não é mais possível pensar de forma linear, ou mesmo dual. Estamos diante da complexa teia do ser humano. Momento de (re)nascimento. E (re)nascer não é tarefa fácil. Fomos criados na água, mas nascemos para a terra. Há sofrimento (e espero que crescimento) nisso, pois somos empurrados para fora da zona de conforto. Entendo que seja esse o momento que vivemos agora.

E eu(nós) estou(amos) tendo a oportunidade de participar de tudo isso. Não é fantástico? Isso me deu ânimo e resolvi compartilhar com os amigos essas reflexões. E se o paraíso está perdido, chegou a hora de juntos, podemos construí-lo.


LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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