ONDE VAMOS PARAR?

Todos nós sabemos - e sentimos - que o país está em crise. Espero que seja uma crise de maturidade. Estamos "lavando a jato" muitas coisas, mas precisamos nos acautelar para não jogar fora a criança junto com a água. E em muitos momentos acho que é isso que estamos fazendo. Já ouvi muito falar da intolerância da polarização que vive o país. Mas, neste domingo vivenciei, e me peguei entrando nessa. Num lugar absolutamente inusitado, em um concerto no Theatro Municipal de São Paulo, de onde sou frequentador assíduo, pois assinante da temporada.

O concerto de domingo, 28/02, começou às 17h e posso dizer que foi quente. Primeiro porque os cabos de força que alimentam a energia dos aparelhos de ar-condicionado do teatro foram roubados em janeiro. Pode? Sim, pode, já vi isso acontecer uma vez numa seção de rua em Parelheiros. Curiosamente é um roubo profissional, pois para fazer esse tipo de operação ilícita é preciso ser especialista, certo? Nenhum Zé Mané se mete a roubar cabos de cobre energizados. Assim, há um esquema que, certamente, inclui a compra desse material de alto valor por alguém.

Bem, por conta das luzes, no palco, o calor devia ser muito maior do que para nós que estávamos na plateia. É verdade que foram instalados estranhos aparelhos de ar-condicionado para "abanar um pouco" a orquestra, que estava informalmente vestida de mangas de camisa. As portas foram mantidas abertas para atenuar o calor. Cada um se abanava como podia.

Assim, diante de um calor causticante, o tetro cheio, a orquestra começou seu concerto, belíssimo por sinal. O maestro, John Neschiling demorou mais do que de costume para entrar, sempre ovacionado, como manda o protocolo. Na primeira parte, as últimas canções de Richard Strauss, acompanhada pela soprano Emily Magee. Intervalo. Calor... impossível comprar água, pois todo mundo desceu para o café.

Começa a segunda parte, Tchaikovsky, sinfonia Manfred. De repente o maestro teve uma vertigem, caiu derrubando tudo! Imediatamente socorrido pelos músicos, que não sabiam bem onde colocavam os violinos. Logo veio a assistência e o maestro foi retirado do palco.

Silêncio, todos perplexos com o fato.

Então aconteceu. Alguém na plateia gritou “A culpa é dessa prefeitura!” – aplausos; e do outro lado logo veio “Se não fosse a prefeitura, não estaríamos aqui!” – muitos aplausos, inclusive os meus.

Quando me peguei nessa atitude pedi para minha mulher que deixássemos o teatro. E me pus a refletir. Como pude entrar nesse "movimento de massa? Onde vamos parar?

Gente a coisa está ruim, mas ninguém é mais responsável do que nós. Quem colocou os políticos onde estão, fomos nós! Muito bem, vamos rever nossos conceitos, melhorar nossas escolhas, mas precisamos reconhecer os avanços, jogar fora a água suja, mas não a criança, os importantes avanços nos direitos que tivemos. Sejamos críticos sim. Vamos procurar mudar algo que é constitucional da sociedade brasileira, a corrupção, mas reconheçamos que a prefeitura não pode ser responsabilizada pelo roubo dos fios! Os cabos foram comprados no exterior e ainda não chegaram. Tudo bem, ninguém no teatro sabia informar nada. Existe incompetência? Sim, existe, mas não dá pra generalizar.

LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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