O SIMBOLISMO POR TRÁS DO APARENTE EXTREMISMO ENTRE A ESQUERDA E A DIREITA

Não é verdade que o país está polarizado entre a extrema direita e a extrema esquerda. O que está acontecendo, e que vem sendo chamado de “polarização de extremos” (direita e esquerda) é uma ilusão fruto da projeção das insatisfações sobre o símbolo. Obviamente essa é a visão de um psicólogo.



Primeiro vamos analisar os fatos políticos do lado esquerdo da arena política.

Por mais que você não goste do PT, não é razoável classificar o partido, ou suas propostas como sendo de extrema esquerda, ainda que se tenha hoje uma candidata a vice que seja do PCdoB, o que daria, digamos assim, à candidatura um tom mais à esquerda, talvez mais próximo das origens petistas. Situação que, aliás, já aconteceu em outros momentos.

Lembremos que, quando o PT esteve no poder seja na presidência ou na cidade de São Paulo, seus governos de forma alguma foram governos radicais de extrema esquerda. Se fossem não teríamos, por exemplo, um cartel bancário atuando no país, tampouco políticas de incentivo como, a que foi (é) chamada de “bolsa empresário”, e uma série de reformas estruturais prometidas nunca realizadas. Vamos lembrar, também, que os vices do PT na presidência eram de “direita” (ou centro direita), o Zé Alencar (PMDB, PL, PRB), e o Temer, PMDB, hoje MDB numa tentativa melancólica de repaginar o fisiológico partido, de forma “vintage”.

Lembremos, também, que na prefeitura de São Paulo, a vice do Haddad seria a Luiza Erundina do PSOL (bem mais à esquerda que o PT), mas quando o PT fez um acordo com o Maluf (muito à direita), a Luiza de forma absolutamente coerente, caiu fora. Assumiu em seu lugar Nádia Campeão, que é do PCdoB, e ninguém nunca ouviu falar. (Será que o PCdoB é de extrema esquerda?)

Portanto, o PT e sua candidatura é de centro-esquerda e não de extrema-esquerda, como muitas vezes se tem falado.

Vamos agora a uma análise psicológica (simbólica), emocional da situação que é, por óbvio, lastreada por elementos factuais que justificam de forma “racional” os posicionamentos. Vejamos:

Há uma imensa raiva ao PT, personificada na figura do Lula, ou talvez fosse melhor dizer, há uma imensa raiva do Lula, personificada numa raiva ao PT. Neste caso partido e pessoa estão fundidos como se fossem a mesma coisa. Essa postura é justificada em função das denúncias, processos e prisões, fracasso econômico, etc. Manifesta num sentimento de “enganação”. Essa postura, muito pouco tem a ver, como muitos querem fazer crer, que se trata de uma reação da classe privilegiada (dominante) reagindo à perda dos privilégios promovida pelos governos petista, o que não ocorreu, pois os privilégios não foram perdidos. As pesquisas mostram, também, que tem gente "comum" (gente-como-a-gente) que está contra o PT/ Lula, não é "apenas a elite".

Por outro lado, ou, do outro lado, há um intenso sentimento de “injustiça, exclusão, de parcialidade”. Neste caso há uma certa separação entre a pessoa (Lula) e a do partido (PT), embora haja muitos que fazem uma fusão, como no caso anterior. Essa postura é justificada no golpe, em julgamentos políticos, e não técnicos. Na postura acima descrita, ou seja, numa visão de uma reação da classe dominante contra a classe dominada, apenas porque ela (a classe dominada) conseguiu mais autonomia.

O que quero enfatizar, ao citar esses elementos e o lugar simbólico que foi construído, ocupado pelo Lula (e algumas vezes pelo PT). Um lugar paradoxal, que catalisa - simbólica e, paradoxalmente - a raiva e a esperança da Nação.

Lula tornou-se um símbolo nacional (coisa que já era) mas que agora foi consolidado com a prisão. Grandes líderes do passado (recente) também foram presos, Mandela, Gandhi, entre outros.

A prisão consolidou esse lugar num culto político-religioso que se formou ao seu redor, muito parecido com o que vimos acontecer quando Tancredo estava no hospital. No caso do Tancredo era mais religioso-politico.

Qual a diferença entre essas posturas? Um culto político-religioso, parte de um fundamento concreto (político) e parte para uma postura religiosa (simbólica); enquanto um culto religioso-político, parte de um fundamento religioso (fé) para uma postura política.

Essa é uma característica própria de nossa sociedade. Veja a “Vigila Lula Livre”. É claro que uma “vigília” é tanto uma ação de fé-religiosa, quanto de fé-política, ou mesmo uma necessidade de segurança no estado de guerra.

Os símbolos são necessários para a cultura. Um, símbolo é um receptáculo, um catalizador que recebe elementos advindos do inconsciente social/cultural, ou, como diria Jung “uma coisa é simbólica quando implica em algo para além de seu significado manifesto e imediato. Esse aspecto do inconsciente assume um caráter mais amplo nunca sendo precisamente definido ou inteiramente explicado”.

Portanto, há os que vem Lula como um símbolo da perdição, e aqueles que o veem como símbolo da salvação, ou ressurreição.

Enquanto receptáculo da raiva (símbolo de perdição), ele recebe toda a frustração (da sombra) de uma parcela da população que se sente enganada, traída (pelos políticos), que viu seu sonho de futuro ruir, voltar pra traz, perder tudo que foi conquistado durante sua Era (Era Lula).

Enquanto receptáculo da esperança (salvação, ressurreição), catalisa o potencial do futuro brilhante (Self), que estava chegando, mas não chegou, daqueles que se sentem preteridos pelas desigualdades, numa concepção mitológica do mito do retorno ao “paraíso perdido” (conquistado na Era Lula).

Portanto se existe uma polarização está aqui, no campo simbólico, ou seja, os que estão a favor, e os que estão contra o símbolo "Lula".

Mas isso tem consequências políticas sérias, olhemos agora para o lado direito da arena, pois essas questões emocionais catapultaram uma candidatura de extrema-direita.

Sim, enquanto a candidatura do PT é de centro-esquerda, como é claramente demonstrada pelos fatos (mas é vista como de extrema-esquerda), a do PSL é, de fato, de extrema-direita. Porque a postura, as declarações e as ações do candidato refletidas com clareza factual em suas posições e ações misóginas, discriminatórias fascistas na acepção da palavra o colocam, com clareza factual nessa posição de extrema-direita. (Lugar que ele não quer ocupar, é claro).

Portanto, psicologicamente o ódio irracional projetado sobre o símbolo (Lula/PT) promove uma “racionalização”, ou como diria Freud, “uma justificativa razoável para explicar o que não é factual” como, por exemplo, chamar o PT, que é um partido de centro-esquerda de extrema-esquerda. Essa forma “defensiva” de ação psicológica, visa unicamente justificar porque pessoas que estão naturalmente à direita tornam-se radicais escolhendo o candidato do PSL que está, de fato, à extrema-direita. Elemento que tem reflexos nas propagandas políticas do PSDB, por exemplo.

A história demonstra de maneira inequívoca que o radicalismo é prejudicial à humanidade. Escolher um candidato que está à extrema-direita já se viu que foi catastrófico. Que possamos, ao compreender nossas motivações mais profundas fazer a escolha mais acertada para o país.


LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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