O MAR DE LAMA E A GRANDE SACERDOTISA

No meio desse mar de lama que é o Brasil, onde constantemente rompem-se barragens de insensatez, inaugurando-se agora “as novas formas hermenêuticas” de interpretação da Constituição, quando presidentes dos poderes da República são afastados - e aqui me refiro ao Impeachment, e ao afastamento “parcial” do presidente do Senado - em votações que fragmentam a objetividade clara da Constituição, em longos raciocínios escritos e transmitidos pela TV, que explicam o inexplicável; e com ministros que ao invés de se aterem à interpretação da Carta Maior, resolvem “ouvir a voz do povo” na mais clara parcialidade política. Nesse meio confuso encontro Norma, a grande sacerdotisa do templo...

Norma é o nome de uma ópera de Bellini, cujo libreto foi escrito por Felice Romani, e estreou no Alla Scala no segundo quarto do século XIX. As árias escritas para soprano, nesta obra, estão entre as mais complexas da história da ópera. A narrativa é ambientada na Galícia druída, um pouco antes da invasão romana, quando o povo celta esperava a liderança da sacerdotisa Norma para resistir à invasão.

A Norma que refiro, entretanto, cujo nome é inspirado na ópera mencionada é a amiga Norma Gasperini Fonseca, uma senhora de 88 anos, que muito gentilmente me enviou sua autobiografia intitulada “A História de Minha Vida” – Edição do autor - (Editora Fé Cristã, 2016). Recebi ontem e avidamente degustei as páginas de sua história.

Li muitas biografias, os psicólogos gostam de história de vida, afinal lidamos com isso o tempo todo. Churchill, Napoleão, Che Guevara, Mozart... Recentemente li biografias de mulheres Elizabeth Kübler-Ross e de Gudrun Burkhard. Esta última, ela própria uma estudiosa da biografia humana na perspectiva dos setênios antroposóficos de Steiner.

Mas por que foi importante ler a história da vida de dona Norma? Porque ela não é ninguém cuja história tornou-se um filme. Aliás, está em cartaz no cinema a história de Elis Regina (Elis), cuja interpretação de Andrea Horta é de tirar o fôlego!

Norma é uma mulher comum – se é que existem mulheres comuns – poderia ser minha mãe, ou sua avó (talvez bisavó?). Uma típica mulher brasileira, filha de imigrantes que viveu uma vida para o trabalho e o serviço altruístico, na melhor acepção do termo.

Aliás, permitam-me mais uma digressão. Recentemente estive dando aulas de pós-graduação em Psicologia Transpessoal, em Campinas, na ALUBRAT, curiosamente lá havia uma temática/demanda muito forte em relação ao feminino. Não é Arlete Silvá Àcciari? Será que tem algo a ver com a conjunção astrológica?

Bem, voltando à história de Norma, trata-se de uma biografia de uma típica mulher brasileira, talvez ítalo-brasileira, filha de imigrantes que viveu as agruras, as intemperes

escondida do pai, e outros que tais... Sonhos que queremos resgatar para nossos netos e filhos. Sua memória primorosa nos dá direito a acompanhar a família encontrando uma granada no quintal de sua casa, durante a Revolução de 1932!

Na simplicidade que ela faz questão de afirmar, aliás, aí está a força da obra, dona Norma, que tem apenas o ensino fundamental, nos dá uma lição de sabedoria e força espiritual ao descrever como o lado bom da religião, da fé (coping positivo) pode sustentar as pessoas nos momentos mais difíceis da vida. Conta também, sua jornada de autoconhecimento realizada no seio de sua Tradição Rosacruz, que faz questão de honrar a todo instante em suas memórias.

Norma narra, sem saber fazê-lo (penso eu), como as mulheres de sua época conseguiram lidar e enfrentar o machismo típico dos homens latinos, ao amar, se submeter e enfrentar aqueles que cruzaram sua vida. É possível ver também um casal que se amava e respeitava e como a firmeza da mulher dobrou a arrogância machista, que, então, num gesto de doçura, sede ao encanto conquistado, “na história do fusca azul”, que eu obviamente não vou lhes contar...

Norma é uma mulher típica do povo brasileiro, sofrida, aguerrida, amorosa, orgulhosa. Esse povo que, com a retidão do gesto vai dar a volta por cima, aprendendo com a liberdade da democracia a construir-se a si mesmo, como fez essa querida amiga em sua história de vida.

LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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