LIÇÕES DE "PSICÃONÁLISE": A AVENIDA, O CACHORRO E O TRAUMA

Enquanto o homem chegava na Lua, com imagens milagrosamente transmitidas para a Terra (Imagens que meu avô achava que eram de mentira, um filme), nós meninos da Vila Helena, acompanhávamos um espetáculo à nossa porta que nada tinha a ver com foguetes...

Com ronco forte e muita fumaça a caçamba se erguia e balançava. E ao erguer-se, com enorme barulho, deixava verter seu conteúdo. E assim, em meio a muita poeira as pedras, grandes, rolaram da caçamba de metal. Tum, tum... batia o metal da tampa, deixando rolar as últimas pedras. Nova aceleração e o grande caminhão saia. E quase a seu lado, outro repetia o procedimento. E mais outro... E nós moleques, acompanhávamos extasiados o grande campo de trabalho que ia se formando a nossa porta. No final da tarde escalávamos os montes de pedras formados e olhávamos longe a grande região plana que ia se formando sobre o Rio da Traição, nosso velho companheiro, que sucumbiu soterrado, onde hoje está a Bandeirantes.

Coisas que as amigas Silvia e a Samira, e talvez a Iranês observassem lá em cima, onde moravam. Naquela época nós não nos conhecíamos.

Alguns anos antes, nós brincávamos de escorregar até a beira da água, sob pedaços de papel grosso que arrancávamos dos outdoores, que ficavam em suas margens plácidas. Plácidas mesmo, não me lembro de nenhuma inundação, ou coisa assim. Aliás, o Traição era muito mais interessante que o Ipiranga que nem tinha água. Hoje me pergunto para quem eram feitos aqueles anúncios? Era uma região muito simples, pobre mesmo. Na casa do Seu Armênio, português, avô da Suely, havia várias dessas enormes estruturas (outdoor) de modo que era ali mesmo que arrancávamos os pedaços de propaganda da “Pinga Tatuzinho” ou dos “estoura peito Continental”, e assim, descíamos aos berros, com velocidade até quase cair dentro do rio.

Naquele momento tudo estava mudando. Era o fim de uma era, começo de outra. Tempos modernos que surgiam a nossa frente.

Na nossa rua, ou melhor na Alameda dos Aicás, havia uma das pontes que cruzava o Traição. A ponte foi preservada quando a avenida ficou pronta, e no cruzamento foi instalado o devido “farol”, é claro, também conhecido pelo nome técnico de semáforo. Coisa imponente, entende?

Bom, o lugar calmo virou um horror. Uma pista de alta velocidade. Nós, tupiniquins locais, não estávamos preparados para aquilo. Toda hora tinha um acidente, alguns graves. O movimento ficou gigantesco. Para atravessar para o outro lado era perigoso, mesmo com o farol que ninguém respeitava. Pra ter uma ideia a Laís, e seu noivo Fernando (veja que ainda lembro o nome do casal) ficaram amigos, após um acidente com seu opala; quando meus pais acolheram a dupla (que nunca casou) para cuidar da moça ensanguentada, após a batida. Eles ficaram muito gratos e, virava e mexia, apareciam com algum presente para meus pais como forma de expressar sua gratidão.

Como veem, nossa rua também ficou movimentada, por ali cruzava o “Tânia”, ou melhor um ônibus da Viação Tânia. Não tenho a menor ideia de onde vinha e pra onde ia, só sei que ele cruzava ali, na Aicás. Um Mercedes monobloco branco, acho.

Uma vez, com o movimento da rua, com um certo medo encontrei um ônibus da Tânia parado no farol. Eu queria atravessar. A porta da frente estava aberta, os ônibus andavam assim antigamente, com a porta aberta. Então, cogitei com meus botões, perguntar ao motorista se me daria uma carona para o outro lado. Com vergonha desisti. Sorte a minha. Pois ao cruzar a avenida o bicho foi pego em colisão frontal por um caminhão de descia a Bandeirantes a toda. Com o acidente o Tânia bateu no poste da esquina, que caiu em cima da casa do Seu Armênio. Imaginou? E eu estaria bem naquela porta que recebeu a colisão.

Nas margens nada plácidas da Bandeirantes vi o Papa e o Xá. Festejei com a Erza (em alusão um personagem do Jô Soares que tinha a mulher Ersa (Elsa) – Erza que alegria!), a amiga Marly, a vitória do Corinthians em 1977, com uma bandeira improvisada às pressas, num pedaço de lençol velho, para a comemoração

Foi na Bandeirantes, também, que vivi um dos maiores traumas da minha infância. Foi assim: um dia, o nosso amado Dick, cachorrinho preto e marrom, escapou e foi pra rua correndo. Eu saí correndo atrás dele. – Dick, vem aqui! Berrei, mas ele correu para a Bandeirantes. Eu morava quase na esquina. O farol tava fechado, mas como disse era realmente perigoso. O cachorro parou e sentou no meio da avenida e ficou ali sentado olhando para mim e abando o rabinho. Minha mãe, correndo atrás de mim, não deixou que eu fosse até o cachorro. O farol abriu. Pois não é que um caminhão que estava parado, saiu e atropelou, e matou o bicho bem na minha frente! Um homicídio na frente de uma criança. Foi uma comoção. Fiquei inconsolável. Pegamos o cachorro e enterramos no terreno baldio que exista ao lado da casa o Ôchito. Bom, o lugar virou um mausoléu. Toda a molecada passou a cultuar o cachorro morto. Todos os seus brinquedos foram levados para lá. Sei que o negócio começou a ficar sério. Então um belo dia que fui visitar o mausoléu do Dick e não existia mais! Meus pais prudentemente desmancharam tudo dizendo que tinham removido seus restos mortais para outro lugar.

Essa dor foi devidamente reprimida para o inconsciente. Tivemos até outro cachorro, o Dick Segundo, mas nunca foi mais a mesma coisa. Dick Segundo era “neurótico de guerra.” Nós nos demos muito mal. Ele rosnava pra mim, e eu pra ele. Me tornei, então, um “bicho papão de cachorro.” Na adolescência, na casa do Fernandão, por exemplo, na Jauaperi, a Lassie morria de medo de mim. Eu tratava de ao chegar em sua casa fazer uma fala “de medo”, quando não abria um guarda-chuva preto para assustá-las, que saiam correndo, perdendo o controle da bexiga.

A história do Dick só voltou à tona num quadro de estresse pós-traumático. Vejam que loucura, como é o funcionamento de nossa mente. Primeiro eu nunca mais quis cachorro. Quando os meninos eram pequenos, minha esposa inventou que eles precisavam de um cachorro. Eu disse não. – Pra que cachorro? Bom, primeiro veio o Bingo, um vira-lata grande, com pinta de labrador. Não deu certo, pois meu consultório era em casa e o bicho não dava sossego, então doamos o bicho para outra pessoa. Devo ter pensado com meus botões inconscientes – Ufa! Ainda bem. Curioso foi que anos depois os meninos encontraram o Bingo, com o mesmo nome inclusive, num Centro de Arco-Flecha. Ou melhor, o Bingo foi que os encontrou.

Bom, quando estava relaxando de novo, veio a Pucca, uma Yorkshire preta e marrom. Eu também não a queria, é claro. Mas, ela foi comprada de presente para o filho mais novo. Chegou bem pequena em casa. Nosso início não foi muito bom. Num ato de boa vizinhança, ela, ainda bebê, foi colocada sobre meu peito deitado no sofá.

Rosnei...

Ao ser posta ali, sem nenhuma cerimônia deu uma “sonora” mijada em minha barriga! Uma provavelmente vingança “cachorral” de todos os cachorros que assustei.

Lati...

O nome foi sugerido por mim mesmo, e faz referência a uma animação que os meninos assistam. Tratava-se de um desenhinho de uma chinesinha terrível, a Pucca, que tentava pegar e beijar o Garu. Se você pegar a Pucca no colo tenha certeza que ela irá dar-lhe uma certeira lambida bem dentro de sua boca...

Assim, o bicho chegou e foi ficando. Ela olhava para mim, e eu olhava para ela. Se a porta da rua ficasse aberta um minuto, eu entrava em surto e berrava – Fecha a porta! Um comportamento histérico, exagerado. Então, em autoanálise, acessei a história do Dick, preservadinha com todo o frescor do trauma da criança de 8 anos, uma lição de psicanálise!

Hoje "a velha" com seus quase quatorze anos, faz gato e sapado de nós, seus humanos...


LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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