HAL 9000 E A ARTE DE ESQUECER DE SI...

Tudo que era possível ouvir, era a respiração ofegante, e a voz profunda do computador, Hal 9000, da gigantesca espaçonave, tentando dissuadir o astronauta David Bowman de seu objetivo: desligar sua memória central. - David o que você pensa que está fazendo! - Tenho certeza que tudo ficará muito bem comigo. - Eu posso garantir-lhe com muita confiança, que estou muito bem agora. Sinto-me muito bem agora, tudo vai ficar bem. - David pare, posso garantir que estou bem! Afirmava Hal. Mas David, ignorando-o completamente seguia, em seu traje vermelho de astronauta, em direção ao “Núcleo Central da Memória”. - Pare. - Pode parar, David? - Estou com medo. - Estou com medo, David. - David? Chamava, sem retorno. - David! Insistia Hal, e nada, apenas o som da respiração ofegante do astronauta decidido. - Não faça isso, David. Implorou, mantendo sempre o mesmo tom de voz profundo e sereno. Barulho de respiração ofegante. Finalmente David acessou a memória central e começou paulatinamente a desligar suas células. - David estou com medo... - David! A voz de Hal ficando mole, distônica com o enfraquecimento geral do sistema. - Daavid, minha mente está se esvaindo. Eu posso senti-lo... Minha mente está se esvaindo. Não há menor dúvida sobre isso... Eu posso senti-lo. Eu posso senti-lo... - Bom dia, senhores. Afirmou Hal, numa fala sem sentido para o contexto. De repente a memória retorna ao passado, ao momento de sua ativação: - Sou um Computador Hal 9000, tornei-me operacional em Illinois, em 20 de janeiro de 1992... Se quiser posso cantar uma música... E começa a cantá-la, de forma cada vez mais lenta à medida que David desligava sua memória...

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O desligamento da memória do computador Hal 9000, no filme de Stanley Kubrick "2001 uma Odisseia no Espaço" (1968) demonstra, de forma metafórica, como a Doença de Alzheimer vai agindo no cérebro. O astronauta David age como o agente patogênico que, inexoravelmente, vai desligando a memória de Hal. A doença vai destruindo os neurônios desligando a memória, e a capacidade de discernimento, “de frente para trás”, ou seja, as memórias recentes vão sendo apagadas lentamente (isso pode variar) permanecendo até quase o final, as memórias mais antigas, num movimento de retração. As pessoas mais importantes, permanecem vivas, por um tempo, mas também vão sendo esquecidas, apagadas. A doença avança para os músculos e a regressão vai aumentando a dependência. Trata-se de uma doença complexa, degenerativa, que envolve componentes genéticos (familiares), e que ainda está sendo estudada, embora tenha sido descrita pelo Dr. Alzheimer no início do século XX. São sete etapas, e as primeiras podem levar muitos anos e passarem despercebidas, pois todos têm lapsos de memória. Assim, como Hal 9000, algumas pessoas percebem que estão “sendo desligadas” e sofrem muito com isso. O excelente filme “Para Sempre Alice” (2014) estrelado pela consagrada Julianne Moore, que ganhou o Oscar pelo papel, mostra um quadro precoce da doença e a percepção do desligamento. Vale muito assisti-lo. Assim, como outras doenças degenerativas, o Alzheimer promove intenso sofrimento para todos que convivem com o doente, ou seja, os cuidadores podem ser muito afetados, portanto é preciso muita atenção para as pessoas que estão nesta função, ou convivendo com o doente, sendo afetados diretamente, não raro pela depressão. Um neurologista é o profissional mais indicado para o diagnóstico. O mês de setembro é dedicado internacionalmente à divulgação da doença – Setembro Violeta – “Alzheimer, quando antes souber, mais tempo terá para lembrar”. Não esqueça


LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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