FUI AO CIRCO COM A VELHINHA!

Lembro que num domingo qualquer, quando eu tinha por volta de 8 anos de idade (acho), eu e minhas irmãs nos preparávamos, com grande excitação, para irmos ao circo, com nossos pais, é claro, quando o tio Waldomiro, irmão mais velho de meu pai, e sua esposa, tia Riqueta (Henriqueta) chegaram em casa. Como eram parentes muito queridos, é lógico que o passeio foi cancelado e nunca mais voltou a ser proposto. Isso nunca foi um problema pra mim (será?), mas nunca saiu da memória, como podem ver.

Quando meus filhos eram crianças, mais ou menos na mesma idade que eu tinha naquela época, eu e Rose, levamos os caras no circo. Num daqueles grandes circos que virava e mexia estavam na capital. Acho que foi o “Garcia”, mas poderia ter sido o “Moscou” ou até o “Vostok”, sei lá? Um desses “grandes”, com animais, que ficavam acampados nas Marginais da cidade. E faziam propaganda na televisão. O picadeiro ficava tão longe da plateia, que se assemelhava mais a uma tela de TV... Acho que os meninos gostaram, mas não lembro de ter sido nada muito empolgante para eles, ou para o público paulistano que é normalmente mais “frio” para essas coisas tradicionais.

Desta vez foi diferente e absolutamente inusitado, fui num circo pequeno, pelo menos assim me pareceu, numa cidade no interior de São Paulo e levei comigo minha mãe que está velhinha! Na verdade, eu é que fui com ela, vejam bem.

A ideia foi de minha irmã Lucy, que me empurrou dois “convites grátis”, que ela havia ganhado em algum lugar, e que eram, obviamente, falsos. Não exatamente falsos, mas parte do “plano de marketing” dessas trupes:

Pense que é um convite grátis (mas não tem o nome do circo). Venha nos conhecer, você vem com seus filhos, para usar os convites. As crianças ficam animadas e você numa saia justa danada, e acaba comprando os ingressos, pras crianças não chorarem. Alguma estratégica desse tipo.

Na tarde daquela sexta-feira perguntei à minha mãe: – Mãe, quer ir no circo hoje à noite? Ela respondeu: - Ah, eu quero. - Vamos, pai? - É, vamos ver. Contrapôs ele sem nenhuma convicção, talvez na expectativa que algum “tio Waldomiro” pudesse aparecer e salvá-lo do que estava me parecendo ser um provável suplício.

Naquela noite de sexta a apresentação estava marcada para às 20h.

A noitinha perguntei: - Vamos, mãe? -Onde? - No circo. - Vamos. - E aí, pai, vamos lá? - Ah, tô cansado, vão vocês. Nem precisou do tio Waldomiro...

O circo estava acampado no shopping tal, foi isso que minha irmã havia dito. Endereço no Google Maps, e “ripa na chulipa...” saímos, eu a velhinha em busca do show.

Chegamos no Shopping, muito próximo das 20h. Não havia circo algum. A menina do estacionamento “Valet”, muito gentilmente consultou “a central”, que informou que o tal circo estava noutro Shopping. Google de novo... Chegamos no tal shopping já passando das oito horas da noite. E lá estava o Circo Máximus, com sua lona vermelha e branca, torneada pelas tradicionais lâmpadas.

O nome do circo era o mesmo do grande circo romano “Máximus”. Será que tinha corrida de bigas? Pensei. Na porta a maior muvuca, uma fila enorme cheia de crianças com seus pais. - Mãe acho que tá meio cheio, vamos embora? - Quero ir no circo! Ih, tô fu... pensei com meus botões. Perguntei pro menino do estacionamento improvisado ao lado do circo: - Sabe se tem algum esquema pra idoso? - Não sei não. Respondeu. Bom, parei o carro no tal estacionamento. Um matagal escuro ao lado do circo. - “Dé-real”. Para sair do estacionamento com a velhinha a tira colo, tive que acender a lanterna do celular. (Tá entendendo o esquema?)

A passos lentos chegamos na porta do circo. A fila continuava enorme na bilheteria, e o espetáculo já tinha começado há meia hora.

Fui direto para a entrada principal com meus “ingressos grátis”. Subi com a velhinha, os três degraus lustrosos da escada de alumínio da entrada. Escada daquele tipo propenso ao escorregão do palhaço, sabe? Chegamos no portal.

- Ih moço isso não vale, não. Disse o rapaz da portaria. Além do mais, tá lotado, não tem mais lugar. - Meu amigo, se não tá entendendo, eu preciso entrar. Balancei a cabeça, com uma careta e uma piscadela, apontando em direção a minha mãe, que o olhava fixamente o portão, de onde vinha o barulho do espetáculo.

Bem, negociei com o rapaz que nos deixou entrar, cobrando apenas trinta reais para nós dois, pois o espetáculo já havia começado.

Quando abri a carteira para pagá-lo, constatei que eu não tinha “um puto”. Tava cheio de tickets de compras, mas a grana tinha acabado. Que zica!

Eu tinha uma nota de 10 dólares. Acredite. Um dinheiro de alguma coisa importada que um dos meus filhos tinha comprado, sei lá! E ela tava lá, a nota de dez dólares, na minha carteira.

- Olha o cara vai pagar em dólar! Falou outro rapaz. - Você aceita? Aceita cartão? -Aceito cartão. Assim, os 10 dólares continuam na minha carteira.

Os rapazes foram muito gentis. Me ajudaram a guinchar a velhinha pelo atrium escurecido do circo até o corredor central. - Espere aqui. Falou um deles. Dali a pouco apareceu outro com uma cadeira de plástico, e a velhinha foi instalada no corredor central, na primeira seção, bem de frente para o picadeiro. Sem ninguém à sua frente. Melhor que os camarotes que eram bem na frente, mas, meio de lado. Eu me sentei no chão a seu lado.

Todos ao redor ficaram solícitos comigo querendo me acomodar em alguma cadeira. Uma gentileza que, certamente, não existiria em São Paulo. – Não estou bem aqui. Falei. E lá fiquei, no chão ao lado da velhinha, de mãos dadas com ela.

Entramos no final de um número de mágica, ou coisa assim. E logo começou o espetáculo de um palhaço, com algumas piadas “prontas”, meio sem graça pro meu senso insuportavelmente crítico.

Mas a reação do público começou a me impressionar. Todos riam e aplaudiam, absolutamente fascinados com o que estavam “vivendo”.

O palhaço, mostrou-se realmente espetacular, quando começou a transcender a palhaçada para a música. Trompetista maravilhoso, entremeou suas brincadeiras ingênuas, algumas até politicamente incorretas, com o cristalino e afinadíssimo som que tirou do instrumento reluzente.

Tudo muito profissional. Contorcionistas, malabaristas, trapezistas e mais palhaços. Um deles até mexeu comigo. Ainda bem que foi de leve.

Adultos curtindo ao serem convidados para auxiliar nas palhaças. Uma verdadeira festa, aplaudida de pé pelas crianças.

Nas montagens mais complexas de equipamentos usados no espetáculo, o intervalo com venda de produtos e brinquedos.

De repente, o rapaz gentil da entrada estava no palco numa apresentação perigosa do tipo “globo da morte humano”.

E velhinha lá, olhando tudo. - Bate palma, mãe. E todos encantados com a velhinha. - Faz tempo que ela não vem ao circo? Perguntou uma mulher que estava na fila de trás com suas filhas, e ao falar comigo acariciou as costas de minha mãe. – Ah, faz tempo. Respondi.

De repente, um novo movimento na plateia, procurando arrumar um lugar para mim. Quanta gentileza.

Saímos um pouco antes do grand finale, pois eu não queria ver a velhinha entrar para a trupe, escorregando numa das escadas de alumínio reluzente.

Quando eu estava escrevendo esse texto um de meus filhos apareceu e eu perguntei. – Lembra quando fomos ao circo, quando vocês eram crianças? – Fomos? Ele respondeu.

E foi assim que numa sexta-feira, especial fui ao circo levar minha velhinha. Ela com 85, e eu com 55. No circo Máximus não teve corrida de biga. No picadeiro os mais jovens; na plateia, os mais velhos, vendendo alguma coisa, ou auxiliando em algo. Uma grande família arquetípica, porque não? Um mágico espetáculo milenar perpetuado pela família circense.


LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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