BOA NOITE AMOR...

Chegamos à vida por meio da luz que nos foi concedida (confiada). Essa luz, que bem poderia (pode) ser a luz de Deus, vem por meio de uma intermediação, obrigatoriamente feminina: “a pessoa de nos dá a luz”.

Depois que a luz é recebida, ainda como centelha, para que não apague, precisa ser cuidada. Assim, normalmente, entre aquela ou aquele de quem recebemos o cuidado para manutenção da chama da vida, forma-se um vínculo mágico e inexplicável ao qual denominamos amor.

É esse inexplicável sentimento – o amor - que ao expandir-se ao longo da vida, materializado na consciência da beleza do cuidado recebido ou, paradoxalmente na falta deste, gera o cuidar.

E assim, a chama mística do amor brilha ao longo da vida como a chama de uma vela, e a história se perpetua em nós, através de nós e para além de nós, num infindável ciclo de luz, vida e amor...

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Já faz muito tempo, foi na época de Getúlio, na Era do Rádio, onde show era transmitido ao vivo do coração dos cantores, aos apaixonados ouvidos dos ouvintes. Foi nessa época, em 1933, que ela chegou ao mundo. Filha do José encanador, e de Alvina, branca como sugere o nome. O casal migrou de São João da Barra, no Rio de Janeiro, para Mogi das Cruzes, em São Paulo, onde já se encontrava uma parte da família. E logo veio um irmãozinho, conhecido desde sempre como Bel (Abel). A família vivia feliz na nova cidade, onde residiam também, a fada madrinha, Dindinha (Joana) que, claro, tinha que ser costureira, e seu marido, o padrinho, caminhoneiro, que só podia se chamar João. Lá também residia Vevelha, um tipo de “maga patalógica”, a querida avó que era benzedeira, e que apesar de fumar um bom cachimbo de fumo de corda, era sempre “cheirosa”, pois usava o ainda presente “Leite de Colônia”.

Em 1936, quando Chico Alves estava no auge, lançando “Boa noite amor”, o sonho da família feliz acabou. Alvina faleceu, imagine, de apendicite aguda! Deixou dois bebes, ela com três anos e o irmãozinho com 1 ano e meio, talvez. É claro que Dindinha e João, e também Vevelha entraram em ação para cuidar dos pequenos. Mas José, o pai, logo resolveu o problema, se “amigando”, como se dizia antigamente, com Alice, ou melhor, Dona Alice como ficou conhecida a madrasta.

O conhecido desenho de Walt Disney, “Branca de Neve”, foi lançado em 1938, e apesar de ser baseado numa história da tradição oral, bem poderia ter sido baseado na história da pequena Lely. Lely? Que nome é esse que não tem se quer um “Maria”, ou coisa assim. Alemão? Nome de um trator? Como uma família brasileira coloca um nome desse na filha? Não, não foi a junção de nomes de avós, ou coisa assim. Ninguém sabe explicar, e quem talvez pudesse, já faz muito que se foi. Bem, a história de Lely, no melhor estilo “contos de fada”, tem também nuances de “Cinderela”, como veremos.

Assim foi, entre o carinho e o amor de Vevelha e Dindinha, com quem passava o dia; e as agressões do dragão Dona Alice, com quem ficava à noite. Dragão que, inclusive, chegou a queimar todas suas roupas. Mas a “gata borralheira”, que não se deixava intimidar foi se tornando uma pessoa aguerrida (e até agressiva), lutando batalha após batalha, na defesa do pequeno Bel, e sua própria, contra o bicho-dragão.

Essa história indubitavelmente triste, tinha também momentos de alegria, como qualquer boa história. Assim, não faltaram lembranças do engraçado tio Mussuzinho, das cartas da prima Lucy, que morava no Rio, a amizade cultivada com as primas gêmeas Cy e Zezé.

Aos 16 anos, ela que queria ser professora como as primas, tornou-se babá, doméstica e depois costureira em São Paulo. Foi sua alforria dos grilhões do fogo do dragão. Mas dedicada e inteligente surpreendeu chegando a supervisora num laboratório farmacêutico, onde conheceu a grande amiga Ana, que infelizmente morreu muito cedo.

Como todo conto de fadas tem um príncipe, esse também teve. Um dia transitando no trem São Paulo-Mogi, um misterioso bilhete apareceu numa das mangas da blusa que trazia sobre os ombros, e que fora cuidadosamente amarada por um nó. O bilhetinho propunha um encontro no “footing” da praça em Mogi. Footing, com bem sugere o termo é o caminhar que os moços e moças faziam ao redor da praça, as moças num sentido e os moços noutro. A ideia era a paquera. Assim, ela e a amiga e também prima Julieta foram ao encontrou do rapaz, com quem acabou casando, razão que me permite hoje contar-lhes essa história de fonte primária.

Assim, nesse infinito ciclo de luz, vida e amor, fui o primeiro a receber essa dose ilimitada de cuidado e amor, que sustenta/sustentou a vida, num sempre presente “Deus te abençoe”, que trato de passar aos meus filhos como herança recebida.

Fomos amigos, e ainda somos, embora hoje com a consciência se esvaindo, como a chama de uma vela, ela não saiba bem com quem está falando. Sabe que é alguém amado, pois vem sempre a pergunta: quando você vem me ver? E nas despedidas o sempre presente “Deus te abençoe”, amparado pela fé em Nossa Senhora Aparecida, cuja oração ela já não lembra direito, então é preciso guia-la passo-a-passo.

O príncipe, com quem casou, e com quem brigou a vida inteira, no melhor estilo “Capitão Gancho - Peter Pan” é o único de quem ela nunca esquece. – “Esse é meu marido”. Não conseguindo ficar longe por muito tempo, nem na recepção do dentista, numa doçura jamais vista. A seu lado caminha impreterivelmente todas as manhãs ao redor da “praça do bocha”, como no footing no começo dessa história, que continua...

Lamentavelmente o dragão ainda continua vivo na pouca memória que lhe resta. O que demonstra a importância das vivências na primeira infância.

Às vezes faz uma malinha com uma "toalha de mesa e um pulôver branco” dizendo "querer ir para casa", embora esteja em casa...

Depois de ter recebido e, de ainda receber, tanto amor só os versos e a melodia mágica de Chico Alves podem expressar metaforicamente meu sentimento e meu agradecimento:

“Quando a noite descer insinuando um triste adeus

Olhando nos olhos teus, hei de beijando teus dedos dizer

Boa noite amor, meu grande amor Contigo eu sonharei

E a minha dor esquecerei Se eu souber que o sonho teu, foi o mesmo sonho meu

Boa noite amor e sonha enfim pensando sempre em mim

Na caricia de um beijo, que ficou no desejo

Boa noite amor, meu grande amor”


LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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