ANOS DOURADOS E DONA CLÉO: TEMPO "BÃO", NÃO VOLTA MAIS

Todos nós temos saudade dos “anos dourados”, o termo é comum a todas as gerações, e refere-se a uma fase da vida particularmente especial, feliz. Quando eu era criança lembro que na “Praça da Alegria” tinha um personagem – o Lilico – que batia seu bumbo cantando: “ - Tempo bom, não volta mais...” Na época eu não entendia bem a piada, agora entendo perfeitamente. Às vezes vejo meus filhos de 20 e poucos anos “falando de sua época...” e rio, são os tais “anos dourados”. Acho também que esses "anos" são meio móveis, assim há várias fases boas que denominamos assim, "anos dourados". Bom, pelo menos para mim é assim, tenho vários períodos de anos dourados.

Os meus “primeiros anos dourados” foram entre os anos 70 e 80... Entre as cabanas, pipas, bicicletas e fogueira da “Casa do Jorge” – onde haviam também as reuniões místicas da “galinha morta”, com direito a velas e tudo (comungados aqui com a amiga Suely Azevedo); e o xadrez, o chá, o rádio amador, o som, a “Disco”, o misticismo rosacruz da “Casa do Óchitu”; sem contar o “War”, os acampamentos na Fazenda, “a Borriquito’s”, as rodas de violão, a Comunidade de Jovens e os bailes da “Casa do Fernando”.

– Tempo bão, não volta mais...

"Minha rua" ficava na Vila Helena, subdistrito de Indianópolis. Hoje todo mundo conhece o lugar como Moema. Eu morava na Alameda dos Aicás, 1658 (a casa foi engolida por uma Boite, não existe mais). Periferia, antes da Avenida Bandeirantes, morávamos vizinhos ao Córrego da Traição, que jaz canalizado sob a referida avenida.

Todos morávamos no mesmo quarteirão.

Sempre que eu saía de casa avisava minha mãe de meu destino: – Mãe, vô no Jorge! Tum! Batia o portão. – Mãe vô no Óchitu! Mesma coisa, batia o portão.

Por favor, atentem que Óchitu não é um nome nipônico, ou coisa assim, é versão aportuguesada de Washington – impronunciável para meninos brasileiros, com toda a sonoridade anglo-saxônica, que o nome requer. Então nos restava o “Óchitu”, que a partir da adolescência ficou conhecido como Ton (bem mais fácil, convenhamos).

Assim como éramos amigos, nossas mães também eram. Então eram muito comuns os “cafés” que as amigas tomam às tardes, umas nas casas das outras. E nós transitando de casa em casa encontrávamos nossas mães ora cá, ora lá. Nossa como tomavam café, minha mãe era praticamente uma “cafetina”... O café ficava, muitas vezes, numa térmica. Meu pai ainda diz que “tomar café é um dever patriótico, de todo brasileiro”, e assim era. Então na minha casa sempre se tomou muito café. Na casa da madrinha Waldete, tinha o "famoso café da tia Felizarda" (que não saia nunca, pras visitas não irem embora). Hoje sou totalmente adepto dessa prática e aqui em casa, e no consultório, onde há cafeteiras de todo tipo, moedor de café, coador de pano, etc. E agora com o Nespresso, um inferno para escolher qual a melhor essência...

Bem, a casa do Óchitu era a mais bacana da rua. Um sobradão. Na porta tinha uma placa de bronze com o nome de seu pai que era advogado. E o mais bacana, era que em determinada época, a casa passou a ter um interfone, equipamento sofisticadíssimo para a época. Imaginou? Caramba a gente tocava a campainha, e lá de dentro Dona Cléo atendia meio exasperada – Quem ééé? Claro, pois o Óchitu era complemente surdo para aquele som. Então ela gritava de algum lugar da casa, numa variação de tons: - Óoochitu é o Duduuuu! (esse sou eu). Isso porque não tinha fechadura eletrônica.

Assim, como não tinha fechadura eletrônica, alguém precisava atender ao portão, e esse alguém, raramente era o amigo. Às vezes era preciso tocar novamente a campainha... E então, às vezes vinha a Temis, sua irmã, de cara feia, abrir o portão, porque o Óchitu – também conhecido entre nós como El Podre, não o fazia. Obviamente sem nenhuma explicação plausível, a não ser que estava ocupado com alguma coisa (provavelmente inútil). Bem, éramos meninos...

Como a casa era muito grande a comunicação era meio aos berros, pelo menos é assim que eu lembro... talvez um pouco fantasioso, mas faz parte dos anos dourados.

Dona Cléo era extremamente cuidadosa com a casa. Um brinco. No começo para entrar tínhamos que passar pela sala de visita. Veja bem, a casa tinha uma sala de visita! Com imponentes sofás de couro negro, uma mesinha de centro de mármore cinza, cheia de peças de cristal, que ficava de frente para uma lareira. Ai de nós se parássemos naquela sala... Era só pras visitas! Passávamos rapidinho pros fundos, onde brincávamos. Não antes de cruzar uma saleta com duas grandes bergeres, no meio das quais havia uma mesinha com uma coleção de cachimbos maravilhosos, com latas de fumo, que nunca vi ninguém fumar. Quando crescemos pudemos sentar como visitas na maravilhosa sala, que continuava igual, impecável.

Depois o Dr. Geraldo, pai do Washington, construiu o “Jardim de Inverno”, onde havia uma mesa de bilhar e um tabuleiro de xadrez, além dos aparelhos de som. O lugar passou nosso habitat, onde passávamos horas ouvindo a “Jovem Pan II” e fazendo gravações num grande gravador de rolo, além de jogar xadrez, é claro. Ganhamos até um quadro de cachorros jogando bilhar, cada um identificado com nossos nomes. Tudo ficou mais fácil, num primeiro momento até o som começar a tirar a paz de Dona Cléo, que logo passou a berrar: - Óoochitu abaixa esse som!

Vivíamos um na casa do outro. Às vezes eles estavam almoçando e eu ficava ouvindo música com o fone de ouvido. Lembro-me de uma vez que todos à mesa estavam gargalhando, porque eu estava fornecendo-lhes uma trilha sonora cantando em algum idioma que lembrava o inglês, alguma coisa que ouvia animadamente nos fones...

– Dudu, quando sair, bate o portão, dizia Dona Cléo.

Às vezes o portão batia sozinho e nós, inclusive o Óchitu, ficávamos do lado de fora. Então ele escalava o muro para ir pra dentro, apoiando-se na maçaneta do portãozinho que ficou, com o tempo, devidamente torta por essa prática. Tudo para não tocar campainha, pois certamente Dona Cléo iria estrilar.

Éramos uns meninos bem estranhos, jogávamos xadrez, tomávamos chá - de hortelã preferencialmente - portanto, nem chá era... Só depois veio a fase da cerveja da qual fazia parte o amigo Heitor.

Nossas conversas transitavam muito pelo universo místico em longos e intermináveis papos filosóficos.

O Óchitu sempre foi da noite, o cara acendia a partir das 22 horas, enquanto eu, diurno, “ascendia para o bico do corvo”, tipo guerreiro escocês morto em Culloden... Tenho certeza que algumas de nossas conversas eu estava mais pra lá do que pra cá... de sono, entende?

Dona Cléo era uma mulher elegante, alta para os padrões brasileiros, filha de Dona Gina, e de Seu... não lembro o nome, pois não o conheci. Tia Eglei, irmã de Dona Cléo, era uma figura sempre presente com seu impecável Corcel quatro portas, marrom metálico. Cléo, mulher de tom de voz alto, era dona de uma risada memorável (bem napolitana), uma de suas principais características, que guardo com carinho. Muitas vezes conversávamos (eu e dona Cléo), sei lá o quê? Sempre gostei de conversar com pessoas mais velhas. (Quando eu era bem criança gostava de visitar vó Dilina, que era mãe do padrinho da minha irmã, o Dindin. Depois bati longos papos com tia Luiza, tia avó do Fernandão).

Na época de Dona Cléo, eu tinha uma lagartixa de borracha que usava para brincar com minha mãe (para assustá-la), pois ela morria de medo do bicho. Como a amiga Cléo comungava da mesma paúra, é claro que eu levava o bicho postiço para assustar a mãe do amigo. Tudo muito divertido e ingênuo, bem na linha anos dourados...

Neste final de ano meus pais, que moram em Rio Preto, e já estão bastante idosos vieram passar o natal conosco. Eu inventei um encontro para uma pizza feita aqui em casa mesmo, antes do natal. E convidei o amigo Jorge, combatente daqueles “anos dourados”, e sua mãe, Dona Carmem - incrivelmente lúcida recitando poesias de autoria própria - mencionei de convidar Dona Cléo, pois o Tom, mora em Santa Catarina. Soube, então de Dona Cléo já não estava bem de saúde.

Entre o natal e o ano novo comprei um panetone e pensei em ligar para Dona Cléofas Elizabeth Margaret Bolognani Fernandes Pereira (se não me engano) – nome de princesa, não? - dizer que estava indo lá tomar um cafezinho com ela. Mas, refreei meu desejo, achando que iria incomodar, pelo que me arrependo, pois ontem soube que Dona Cléo havia falecido.

Já conversei com meus amigos Washington e Temis expressando meu pesar, mas não pude deixar de registrar esse fragmento como um tributo à memória de Dona Cléo.

Assim, bato meu tambor para a mãe do amigo cantando:

- Tempo bão, não volta mais..


LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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