A RESPONSABILIDADE POLÍTICA DO INICIADO NA TRADIÇÃO, HOJE


Gostaria de compartilhar com os amigos algumas reflexões pessoais sobre o momento político à luz da Tradição.

O Esoterismo Ocidental – uma grande escola de pensamento ligada, entre outras, à Filosofia Perene - que se perde na aurora da história, possui inúmeras Ordens Iniciáticas. Os processos iniciáticos em muitas dessas organizações visam proporcionar a “elevação da consciência” rumo ao que Richard Maurice Bucke denominou “Consciência Cósmica”, nível que poucos seres humanos atingiram, mas que, segundo os fundamentos tradicionais, todos estão em busca de atingir.

No drama ritualístico, devidamente preparado pelo o iniciador, tem-se a oportunidade de, pela via do coração, ascender em consciência. Tais rituais, não raro, são embalados por lindas canções e sons de poder, que conferem ao iniciando profunda interiorização, quando de forma solene diante de seu "Mestre Interior" ele realiza promessas e juramentos que visam, de forma geral, o comprometimento do iniciado com a evolução da humanidade.

Os ensinamentos tradicionais de muitas dessas escolas enfatizam a equidade entre os seres humanos, isto é, compreendem que, a despeito de sua origem familiar, social, nacional; a despeito de sua etnia, sexo ou orientação sexual, todos são iguais perante o Cósmico (ou Deus) e, desta forma, são dignos de evolução. Há, portanto, uma visão positiva da natureza humana, compreendendo-a como intrinsecamente boa.

A despeito dessa dimensão ontológica do Ser Humano, sabe o místico, que a história promove desvios, e que, em função destes, alguns seres humanos se julgam superiores a outros. Esse equívoco pode ocorrer, como já ocorreu muito, ao longo da história. A narrativa tradicional "do desvio" é contata e recontada em mitos tradicionais, e contemporâneos, como é o caso de “Star Wars”, onde o corretíssimo Anakin Skywalker se torna o mais notório “mago negro”; ou em “O Senhor dos Anéis”, quando o líder da Ordem Branca, o mago Saruman, é seduzido pelo que em Star Wars é chamado “o lado negro da força”*, e passa a fazer toda sorte de barbaridades...

Retomando a Tradição, foi assim que no século XVII um círculo intelectual de esoteristas reunido na cidade alemã de Tunbinguen, conhecido como “O Círculo de Tumbiguen”, funda historicamente o movimento Rosa Cruz produzindo “Manifestos Públicos” que denunciaram politicamente a situação da Europa daquela época. No “Confessio Fraternitatis Rosae Crucis”, por exemplo, afixado nos postes das ruas de Paris, há uma gigantesca crítica aos desmandos da Igreja, que insistia em violar direitos (não se fala assim naquela época) e enviava sistematicamente pessoas para a fogueira. Por isso o círculo fundou uma sociedade e se manteve “secreto” (para fazer a crítica e não ir para a fogueira). Os efeitos da Inquisição perduram até meados do século XX, pois ainda exista uma comissão (Congregação do Index) que fazia a censura do que podia ,e não podia, ser lido pelos fiéis.

Na Tradição, iniciados e iniciadores nas "Escolas de Mistério" têm muitas responsabilidades, assumidas solenemente perante o Cósmico – e suas próprias consciências – tais responsabilidades são relembradas, e desenvolvidas, em rituais regulares, em que se veem "convocados" a trabalhar psiquicamente com as vibrações de “Luz, Vida e Amor”, que são emitidas para toda a humanidade. Tais pessoas estão comprometidas, portanto, (pois fizeram promessas para isso) em pautar suas vidas para a construção de um mundo mais justo e igual.

Uma dessas organizações iniciáticas, a AMORC, veio público no início do Século XXI, e de forma muito reflexiva (e séria) se manifestou a partir de documentos similares aos do século XVII – Manifestos – onde externou para o mundo e, é claro, para seus membros, seu posicionamento, suas preocupações “políticas” (pois toda manifestação pública é de ordem política). Desses documentos dois se destacam o “Positio Fraternitatis Rosae Crucis” (2001) e o “Appellatio Fraternitatis Rosae Crucis” (2014).

No “Positio” (posicionamento), lançado em 2001, por exemplo, há um clamor pela renovação da política reconhecendo-se o perigo dos extremismos totalitários de direita e esquerda, pois tais posturas extremas “traem o direito à liberdade” (pág.9). O rosacrucianismo não é “monológico, encoraja o diálogo com outrem e favorece as relações humanas, aceita a pluralidade de opiniões e a diversidade dos comportamentos. A democracia continua a ser a melhor forma de governo” (pág. 10). Continua o documento afirmando que a polarização gera conflitos, e que estes se opõem “à Regeneração da Humanidade”.

No “Appellatio” (apelo), publicado em 2014, retoma-se a preocupação iniciada no “Positio “ fazendo um apelo em três níveis: "à Espiritualidade, ao Humanismo e à Ecologia”.

No que diz respeito ao humanismo enfatiza: “Um verdadeiro humanista considera que todos os seres humanos são células de um único e mesmo corpo: o corpo da humanidade. Um humanista digno desse nome respeita todas as diferenças, na condição de que, naturalmente, elas não ameacem nem a dignidade e nem a integridade das partes. Em outras palavras dá provas de tolerância e não se comporta com se fosse ou se sentisse superior. Este é um sinal de inteligência, pois a intolerância, em todas as suas formas, é geralmente o apanágio da estupidez ou (e) do orgulho. Infelizmente, essa fraqueza, o mais exatamente esse defeito , é um dos mais correntes, de onde os muitos conflitos que opõem os serem humanos entre si, se originam.” (pág.14).

Assim, Iniciados e iniciadores precisam estar muito atentos ao seu posicionamento político, pois há um comprometimento espiritual nesta ação. Não importa se somos de direita ou esquerda, mas sim com quem estamos quando estamos à direita ou à esquerda...

Fraternal abraço em paz profunda!

*(Por favor, compreenda que essa forma de escrever (branco e negro) nada tem a ver com discriminação étnica, essa é forma que a tradição usa para descrever os fenômenos da consciência entra "a luz e as trevas”. Há em muitas Tradições afro-brasileiras o uso do branco associado à pureza.)


LEV BERNI DESENVOLVIMENTO HUMANO PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO

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